Se você lidera uma organização hoje, já percebeu que o problema não é falta de planejamento. O problema é sustentar clareza, foco e alinhamento em meio à incerteza.

Planos são feitos, prioridades são anunciadas, OKRs são definidos. Mas, ao longo do ciclo, surgem ruídos, interpretações diferentes, conflitos silenciosos e pressões externas inesperadas. De repente você entra em uma neblina, e a execução começa a perder coerência.

Não é incompetência. É complexidade.

Pete Behrens, no livro Into the Fog, utiliza a metáfora da neblina para descrever o desafio da liderança contemporânea. Liderar hoje é avançar em um ambiente onde a visibilidade é limitada. Você enxerga parte do caminho, mas nunca o trajeto completo.

A neblina não é exceção. Ela é a condição permanente.

Vivemos sob aceleração contínua de mudanças e interdependência crescente entre áreas, mercados e stakeholders. Decisões locais geram impactos sistêmicos. Movimentos externos alteram premissas internas rapidamente. Interesses legítimos entram em tensão.

Nesse cenário, a pergunta central deixa de ser “qual é a melhor estratégia?” e passa a ser “qual é o nível de maturidade da nossa liderança para sustentar estratégia e execução sob incerteza?

O Que é Liderança em Ambientes VUCA e Por Que a Complexidade Aumentou

VUCA não é apenas um acrônimo moderno. É a descrição de um ambiente onde volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade coexistem.

  • A volatilidade reduz a previsibilidade.
  • A incerteza limita a clareza sobre o futuro.
  • A complexidade amplia interdependências.
  • A ambiguidade enfraquece interpretações únicas.

Mas há algo ainda mais relevante: a forma como o líder processa essa complexidade. Bill Joiner, autor de Leadership Agility, demonstra que líderes operam a partir de diferentes níveis de consciência. Esses níveis determinam como interpretam desafios e como tomam decisões.

Não se trata apenas de experiência ou senioridade. Trata-se de capacidade cognitiva e emocional para lidar com múltiplas variáveis simultaneamente.

Alguns líderes reduzem a complexidade. Outros tentam organizar a complexidade. Os mais desenvolvidos integram a complexidade.

Essa diferença explica por que duas organizações expostas ao mesmo ambiente podem ter desempenhos radicalmente distintos.

Leadership Agility: Como os Níveis de Consciência Impactam Estratégia e Execução

Sem seguir modelos de forma rígida, é possível observar três padrões recorrentes de liderança em ambientes complexos, inspirados nas pesquisas sobre agilidade de liderança.

Liderança Baseada em Expertise 

Nesse padrão, o foco está na competência técnica e na resolução de problemas específicos. O líder é eficiente, direto e orientado a resultados imediatos.

Esse estilo funciona bem quando os desafios são delimitados e relativamente previsíveis. No entanto, em ambientes sistêmicos, surgem limitações.

A liderança baseada apenas em expertise tende a resolver problemas isolados, assumir que alinhamento decorre naturalmente da hierarquia e tratar conflitos como obstáculos operacionais.

Em organizações interdependentes, isso cria silos invisíveis. Cada área otimiza seu próprio desempenho, enquanto o sistema como um todo perde coerência estratégica. A neblina aumenta, mesmo que indicadores locais estejam “verdes”.

Liderança Orientada a Resultados Estratégicos

Em um segundo nível, o executivo amplia o horizonte. Ele compreende que liderar é mobilizar pessoas em torno de resultados estratégicos claros.

Passa a olhar com mais atenção para o ambiente externo, a definir prioridades de forma mais explícita e a investir intencionalmente em alinhamento entre áreas.

Perguntas estratégicas ganham espaço:

  • Estamos escolhendo onde competir e onde não competir?
  • O que deixaremos de fazer para proteger foco?
  • Que resultados precisam mudar concretamente no próximo ciclo?

Aqui, contexto deixa de ser implícito. Ele passa a ser comunicado, reforçado e traduzido em métricas. A execução começa a ganhar foco real.

Ainda assim, se a cultura organizacional não evolui, cada novo ciclo estratégico exige enorme esforço de alinhamento. A organização responde, mas não necessariamente aprende.

Liderança que Constrói Agilidade Organizacional

No nível mais avançado, a pergunta muda de natureza.

Deixa de ser apenas “qual resultado precisamos atingir?” e passa a ser “que tipo de organização precisamos nos tornar para sustentar resultados sob qualquer cenário?

Essa forma de liderar integra estratégia e cultura. Líderes compreendem que:

  • Não existe execução consistente sem governança clara da atenção.
  • Não existe alinhamento sustentável sem conversas difíceis.
  • Não existe agilidade organizacional sem líderes dispostos a revisar suas próprias premissas.

Nesse estágio, o foco não é apenas entregar metas. É desenvolver capacidade coletiva. A organização passa a ter rituais que sustentam foco, mecanismos que tornam desalinhamentos visíveis e espaços seguros para divergência produtiva.

A neblina não desaparece. Mas a organização aprende a navegar dentro dela.

Como Alinhar Estratégia e Execução em Ambientes Complexos

Executivos frequentemente afirmam que o maior desafio é o gap entre estratégia e execução. Na prática, esse gap raramente é técnico. Ele é sistêmico.

Ele surge quando:

  • Existem "prioridades" demais para a mesma capacidade organizacional.
  • Os critérios de decisão não estão explícitos.
  • Dependências críticas não são discutidas abertamente.
  • Stakeholders influentes não estão genuinamente alinhados.

Alinhar estratégia e execução exige mais do que um bom planejamento anual. Exige clareza de contexto sustentada ao longo do ciclo.

Isso implica explicitar escolhas, traduzir estratégia em poucas prioridades mensuráveis e criar rituais de acompanhamento que não sejam meramente operacionais, mas estratégicos.

Implica também maturidade relacional. Desalinhamentos raramente começam como conflitos explícitos. Eles começam como silêncio. 

Liderar em ambientes VUCA é aprender a escutar o sistema antes que ele entre em ruptura.

O Papel de líderes na Construção de Clareza, Foco e Alinhamento

Para líderes e executivos, o maior risco não é errar uma decisão isolada. É permitir que a organização opere com múltiplas interpretações implícitas sobre o que é prioritário. Clareza estratégica não é discurso inspirador. É disciplina.

Ela exige escolhas explícitas, priorização real e conexão direta entre estratégia e indicadores. Exige também disposição para ouvir feedback desconfortável, revisar hipóteses e ajustar rota com rapidez.

A maturidade da liderança define o grau de coerência do sistema.

Se o topo opera com ambiguidade implícita, a organização amplifica essa ambiguidade. Se o topo opera com clareza e abertura, a organização tende a reproduzir esses padrões.

Agilidade Organizacional: Equilíbrio Entre Estabilidade Estratégica e Flexibilidade Tática

Existe uma tensão inevitável entre direção e adaptação.

  • Ausência de direção gera dispersão.
  • Excesso de controle gera paralisia.

A verdadeira agilidade nasce do equilíbrio. Definir claramente o que não está em negociação cria estabilidade estratégica.
Permitir flexibilidade sobre como chegar lá cria adaptabilidade operacional.

Essa combinação não depende apenas de métodos ágeis. Depende do nível de consciência do líder.

Como sugere a metáfora da neblina de Pete Behrens, a visibilidade sempre será parcial. Como demonstra o modelo de Bill Joiner, a forma como lidamos com essa visibilidade limitada depende do nosso estágio de desenvolvimento.

A pergunta mais estratégica talvez seja esta:

Estamos apenas atravessando a neblina a cada ciclo, ou estamos nos tornando uma organização capaz de navegar qualquer neblina futura?

Empresas que prosperam em ambientes VUCA não são as que enxergam tudo. São as que desenvolvem líderes capazes de sustentar clareza, alinhamento e aprendizado contínuo sob incerteza.

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